Quem tem medo da síncope?


Se você é alguém ligado à música na igreja, certamente já ouviu (ou leu) por aí alguma coisa sobre os malefícios da síncope na música. Além disso, tornou-se popular no meio adventista a teoria de que Satanás inverteu a ênfase rítmica normal, que estava no 1º e 3º tempos (tempos fortes) e colocou no 2º e 4º tempos (tempos fracos).[1] Segundo tal teoria, essa ênfase "invertida" causa desequilíbrio corporal, enfraquece o lóbulo frontal e produz secreções sexuais.

Resumidamente, a síncope é o prolongamento sobre um tempo forte de uma nota emitida em tempo fraco ou na parte fraca de um tempo, como no exemplo destacado abaixo:


Segundo material disponível na internet, os efeitos da síncope na música são:
- estimula os músculos a produzir movimentos físicos
- produz no sistema nervoso central o mesmo efeito que as drogas psicoativas (cocaína, nicotina, anfetaminas, etc.)
- causam confusão mental
- podem produzir euforia, convulsões, transe, hipnose, dependência, tolerância e vício
- os músicos utilizam o ritmo sincopado para causar dependência e tolerância e assim vender bem.
- causa estresse, ansiedade, movimentação física (dança, marcha, exercícios, etc.), euforia, êxtase, transe, hipnose e vício.

Deixando de lado a discussão sobre a veracidade científica de tais afirmações, gostaria de, usando o critério desses pesquisadores, apresentar-vos alguns hinos perigosos:

Vamos começar pelos queridos hinos do Hinário Adventista. Analisemos "Achei um grande amigo" (HASD 88). Cerca de ¼ dos compassos desse hino trazem síncopes.


É compreensível que essa música seja tão sincopada: foi composta pelo fundador do estilo musical do “Exército da Salvação”, Charles W. Fry. Só para lembrar: o culto ruidoso da Carne Santa na campal de Indiana foi acompanhado de música ao estilo “Exército da Salvação”.[2]
Então, talvez os puristas tenham razão nessa história de convulsões, transe, etc. Se você acredita nessas teorias, seja prevenido: por via das dúvidas não cante esse hino...

Outro exemplo, um pouco mais leve e disfarçado, é o "Amigo mui precioso" (HASD 106):


Nesse aqui, a escrita em 2/2 camufla a síncope. Mas não se engane: ela está lá, espreitando você. Pronta para dar o bote em “Amigo mui precioSO...” e “assim andamos junTOS...”.

Outro exemplo de síncope, nas estrofes e no refrão de "Não há amigo igual a Cristo" (HASD 111):

E nem o casal Bill e Gloria Gaither escapou da síncope em "O Rei vem vindo" (HASD 128): Essa é clara: síncope explícita, sem disfarce na escrita. E quando chegamos ao refrão, observamos o mesmo padrão sincopado:
Agora um Negro Spiritual, "Anunciai pelas montanhas" (HASD 137):

Não foi sem críticas que os Negro Spirituals entraram no repertório adventista. Veja o que Dario Pires Araujo escreveu sobre tais hinos em 1969:

“Ao argumento de que eles (os Negro Spirituals) contêm sentimento, respondemos que nossa religião deve ser muito mais racional do que sentimental, mais espiritual do que emotiva. Por esta razão, em todo o nosso estudo jamais traduzimos o termo "negro spirituals", pois não o sabemos qual a melhor expressão que o traduza: se "espirituoso" ou se "espiriteiro", ou ainda "espiritado". Estamos convictos, porém, que não o poderíamos traduzir por "espiritual" que se refere a natureza de Deus, ou também a mais nobre face do ser, da pessoa humana. E qualquer obra que nasça de um sentimento de tristeza que não seja o de tristeza pelo pecado que causou o sofrimento de Cristo, esta fora do espírito do cristianismo."[3]

Mais um exemplo de síncope, desde a estrofe até o refrão de "Um novo nome lá na glória" (HASD 212):


E aqui está a síncope na mais pura essência: "Com Cristo no meu coração" (HASD 233). Esse hino sim deveria causar convulsões, hipnose e transe (se a teoria tivesse fundamento).


Dos 16 compassos, 5 trazem síncopes na linha melódica (2 síncopes em cada um desses compassos, o que resulta em 10 no hino todo). Se levarmos em conta o arranjo vocal, 7 compassos trazem síncopes (14 síncopes no hino inteiro). Isso representa quase metade do hino. E a situação pode ficar crítica, já que o hino repete tudo 4 vezes! Se o ritmo sincopado realmente pode produzir algum efeito maléfico, tem que funcionar nesse hino...

Poderíamos citar ainda “Brilha no meio do teu viver” (HASD 308), que também traz síncopes em 25% dos compassos. Até o belíssimo “Eu achei” (HASD 476) foi contaminado pela síncope. E o refrão de “Cristo conta comigo agora” (HASD 487) é uma coleção de síncopes.

E os exemplos podem se multiplicar. Alguns com muitas síncopes, outros com poucas, e outros com a suposta “inversão satânica” no ritmo forte. Tudo isso deveria causar no mínimo, confusão mental, segundo aqueles que por décadas assombraram as igrejas com essas teorias. Verifique estes:
- Amor nos faz contentes (HASD 238)
- Conta as bênçãos (HASD 244)
- Como agradecer (HASD 249)
- Confia em Deus (HASD 273)
- Oh quão doces as novas (HASD 335)
- Inda é longe Canaã (HASD 339)
- Ao passares pelas águas (HASD 367)
- Ao teu lado quero andar (HASD 407)
- Primeiro quero ver meu Salvador (HASD 439)
- O Senhor está aqui (HASD 470)
- Jesus, tu és a minha vida (HASD 478)

Se há problema na síncope, corremos sérios riscos de entrarmos todos em transe místico a cada sábado que cantamos esses hinos.

E se fôssemos analisar o repertório adventista contemporâneo, aí sim a situação estaria perdida: sobram síncopes a cada compasso. Procure em todos os CD’s adventistas que você possuir: a síncope muito provavelmente vai estar lá. Inclusive naquele CD que você acha tão consagrado, tão sacrossanto, tão “isso sim é que é música!”.

Nas músicas do Ministério Jovem, lá estão as síncopes. Veja quantas aparecem só nas primeiras frases de Vinde as Águas:


Incrivelmente, não há relatos de casos de êxtase, hipnose coletiva ou convulsões provocadas por essa música!

E, para encerrar, um teste. Abaixo temos mais uma música de um CD Jovem repleta de síncopes. Praticamente todos os compassos trazem síncopes. Se você tiver coragem, aperte o “play”. Mas cuidado: de acordo com especialistas, ao ouvir essa bela canção você poderá sentir os mesmo efeitos que os usuários de drogas...


Creio que os exemplos citados acima dariam ótimos "estudos de casos",se é que alguém ainda se dispõe a levar a sério as teorias da "síncope maligna" e da "inversão satânica". Reconheço que ritmos sincopados produzem efeitos (eles servem justamente para isso afinal!), mas certamente não merecem a demonização exagerada que sofreram por décadas.

Sim, esse artigo teve um tom irônico. Mas em momento algum ele faltou com a verdade.
Esclarecimentos? Creio que os autores de livros e artigos com tais teorias científicas sobre a síncope e sobre a “inversão satânica” é que devem se pronunciar.
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[1] Essa teoria, já defendida por autores como Samuele Bacchiocchi em O Cristão e a Música Rock, p 244, foi recentemente divulgada por Daniel Spencer em sua série de palestras “A Guerra dos Sentidos” no trecho que pode ser ouvido em: http://www.youtube.com/watch?v=D0zocGoI41Q
[2] Obviamente, você deve ter percebido a ironia no meu comentário. Não há aqui nenhuma intenção de criticar o Exército da Salvação. Ellen White aconselha a não imitarmos os métodos do Exército da Salvação, mas não nos autoriza a criticá-los:
“O Senhor tem balizado a nossa forma de trabalhar. Como um povo, não devemos imitar os métodos do Exército da Salvação. Esta não é a obra que o Senhor nos deu para fazer. Nem é o nosso trabalho condená-los e falar palavras duras contra eles. Há almas preciosas, que se desgastam no trabalho no Exército da Salvação. Devemos tratá-los com gentileza.
Há no Exército da Salvação almas honestas, que estão sinceramente servindo ao Senhor e que verão maior luz, avançando para a aceitação de toda a verdade. Os obreiros do Exército da Salvação estão tentando salvar os negligenciados, os oprimidos. Não os desencoragem. Deixem-nos fazer essa classe de trabalho por seus próprios métodos e em sua própria maneira.” Testimonies for the Church, vol. 8, p. 184.
[3] Apostila “A Música na Igreja Adventista” (material editado por Dario Pires Araújo em 1969), p. 29.

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