
Pianistas acostumados a tocar sempre sozinhos podem levar os cacoetes e clichês de “pianista de igreja” ao se juntarem a uma banda. E apesar de todo a nossa merecida admiração, devemos reconhecer que pianistas performáticos ao estilo Anthony Burger não são o protótipo ideal de um tecladista de uma banda de louvor congregacional. Não se espera uma performance ao teclado durante o período de louvor musical da igreja (talvez durante peças instrumentais, intróitos, poslúdios, etc).
Um problema bem comum ao tocar em banda na igreja é o grave embolar. Tecladistas e violonistas querem tocar o baixo, a harmonia e a melodia ao mesmo tempo, como se estivessem sozinhos. Mas, numa banda, fiquem tranqüilos, amigos: vocês não estão sozinhos, há um baixista convosco. Deixe para praticar o “walking bass” em outro momento que não seja durante o louvor, atropelando o baixista.
Freqüentemente, o conflito entre as notas graves envolve as notas tocadas pelo baixista e a mão esquerda do tecladista/pianista. Quando houver um baixista na banda, ele deverá dominar a região dos graves. Toda a equalização e as notas tocadas pelos demais instrumentos harmônicos (teclado, violão, guitarra, etc) devem “respeitar” o domínio, o espaço do baixo.
E como se respeita o espaço do baixo? Varia de acordo com o bom senso (e bom gosto) e conhecimento dos instrumentistas envolvidos, mas a maneira mais simples e eficaz (até mesmo óbvia) é deixando vazio o espaço dos graves, assim esse espaço será preenchido pelo baixista sem conflitos.
Respeitar o baixista ajuda a resolver "graves" problemas.
"Baixo" x "Mão esquerda do tecladista"
Tecladistas e pianistas: com a banda, experimentem tocar só com a mão direita trechos da música, apenas para perceber a diferença. Façam o teste e verifiquem que o som produzido é mais limpo, e isto pode ser usado para variar matizes na música (limpar a estrofe, pesar o coro, etc). Ao usar a mão esquerda, para produzir um som limpo que não atrapalhe o baixo e não ocupe o seu espaço, o comum (para acordes fechados) é que não sejam tocados as notas abaixo do dó -1 (aquele que se encontra uma oitava abaixo do dó central). Suaves arpejos e acordes com a mão esquerda (voicings) preenchem muito bem espaços da música quando feitos dentro desse limite.
Outro truque rápido é que quanto mais graves forem as notas, mais abertos deverão ser os acordes. Acordes graves muito fechados (com notas muito próximas) preenchem demais o espaço ou até embolam demais.
É bom lembrar também que o piano é um instrumento de “acompanhamento” por excelência. Ora acompanha vozes, ora acompanha instrumentos. E por isso existem inúmeras técnicas de acompanhamento (não entraremos em detalhes aqui). Mas destacamos isto, apenas para ressaltar que a técnica que será usada para acompanhar as vozes da igreja quando o piano for tocado sozinho é diferente daquela que será utilizada quando uma banda acompanhar a igreja. Sozinho, o piano precisa preencher praticamente todos os espaços. Geralmente a mão esquerda serve para fazer o acompanhamento e a mão direita pode ou não complementar esse acompanhamento, mas principalmente apresenta a melodia. Um exemplo bem conhecido de técnica de acompanhamento da mão esquerda é o “stride piano” da música “The Entertainer”, de Scott Jopling, um famoso ragtime.
Repare como a mão esquerda faz a linha do baixo e preenche com o acorde:
Geralmente, numa banda de louvor, o tecladista não precisa de um recurso semelhante a esse pois não há espaço para isso. Quando inserimos o piano numa banda, existem outros instrumentos que precisam intercalar e dividir os espaços. Um pianista famoso afirmou claramente que tocar tem a ver mais com compartilhar do que com competir. Existem técnicas de acompanhamento no piano/teclado que sequer usam a tônica do acorde (o baixo, ou primeiro grau, aquele mais importante) . Então a mão esquerda nem utiliza o primeiro grau, já que o instrumento baixo estará nessa nota. Para saber mais sobre técnicas de acompanhamento, consulte “comping”.
Não é o intuito aqui se aprofundar nessas técnicas específicas, mas sabendo que existem várias formas de acompanhar, você ficará mais atento a como pode ser usada a sua mão esquerda. Os diferentes estilos têm as suas diferentes formas de acompanhamento no piano e nos outros instrumentos, portanto a regra mais valiosa é: escute muito, vários estilos. Perceba e aprenda quais características no acompanhamento fazem um som diferente de outro estilo. Isso lhe ajudará a ter mais recursos na hora de acompanhar uma banda ou vozes com suas teclas.
Usar a mão esquerda com sabedoria também ajuda a resolver graves problemas.
Acordes Invertidos
Se os instrumentos harmônicos enfatizarem demais o grave, o baixo fica sufocado, sem liberdade para inverter acordes e acrescentar notas de passagem pois há uma certa poluição sonora na região dos graves.
O problema fica nítido nos acordes com baixo invertido (por ex., D/F#, A/C#).
Se os demais instrumentos não seguirem a inversão do baixo, o grave vai embolar.
Considere a estrofe de “Maior que tudo” (Above All)
Se em D/F# o tecladista tocar o acorde de Ré e “encher a mão” no grave sem inverter o acorde, o som das notas graves do teclado e do baixo vai embolar, pois estão próximas. E se o tecladista acompanhar a inversão mas tocar o grave oitavado e muito forte, o som pode sujar também, mesmo tocando a mesma nota.
Numa música suave como essa, o som ficaria mais limpo se o tecladista usasse a mão esquerda assim no refrão:
Acompanhando a inversão com uma nota F# não tão grave, e talvez preenchendo a harmonia nos médios e abrindo alguns acordes nos agudos.
Se você tocar as notas graves (como referência, as notas abaixo do dó -1), obrigatoriamente deverá fazer as inversões corretas, mas deixe os graves limpos com notas bem abertas (espaçadas umas das outras). Se você tocar acordes agudos, às vezes nem será necessário se preocupar com as inversões.
Alguns violonistas ignoram as inversões e tocam apenas o acorde principal (em D/F#, tocam apenas D, por ex.). Quando fazem o acorde em regiões mais agudas, o problema não aparece. Mas em acordes como E/G#
, o problema aparece, pois fazendo E
, o problema aparece, pois fazendo E
sem inverter o acorde, a corda Mi grave pode embolar com o G# do baixo ou dos demais instrumentos harmônicos. E quanto mais grave estiver a equalização do violão, mais feia a coisa ficará.
Não ignorar a inversões ajuda muito a resolver "graves" problemas.
Timbres Graves
Tecladistas e guitarristas, lembrem-se que os diferentes sons utilizados pelo seu teclado ou pelo sua pedaleira, possuem diferentes intensidades de graves e agudos. Cada som tem a sua característica, e alguns são mais graves do que outros, o que deverá mudar o seu jeito de tocar em cada som que você escolher. Por isso, você deve conhecer os sons com que toca.
Se o tecladista prestar atenção, perceberá que existem timbres no seu teclado que são bem mais graves que o som de piano, e ao usá-los deveria ter bem mais cuidado com as notas graves. Usando timbres graves, não encha a mão no teclado, reduza o número de notas tocadas.
Violonistas também devem procurar respeitar a área do baixo, não forçando nas notas e equalizações graves. Violonistas que se acostumaram a tocar sozinhos também tendem a querer fazer toda a linha do baixo no violão, exigindo que o sonoplasta coloque mais grave no violão, e isso pode embolar o som.
Escolher bem o timbre e usá-lo com cuidado pode representar o fim de graves problemas no louvor.
por Lidio Esteban Vargas Samaniego e Isaac Malheiros Meira