Feliz Aniversário, Adoração Adventista!

O nosso site completou no dia 1 de Janeiro de 2012 dois anos de existência.

Alcançamos esse ano 47.514 visitas únicas ao site e 100.935  visualizações de páginas de artigos.

Agradecemos de coração aos fiéis leitores que nos visitam semanalmente em busca de uma perspectiva equilibrada sobre o importante assunto da adoração adventista.

Como editor, agradeço aos escritores que se dedicam a fornecer artigos relevantes e bem pesquisados ao nosso site. Recebo frequentes mensagens de líderes da IASD no Brasil que lêem nosso site em busca de respostas. Sem dúvida, estamos dando uma contribuição importante à Igreja. Sigamos em frente!

Um Feliz Ano Novo a todos!

Um forte abraço,
André Reis
 
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Sob o domínio do medo

Quando as crianças não querem obedecer, é comum ouvir dos pais: “se você não fizer, o velho do saco vai te pegar”. Quando não querem dormir: “A Cuca vai te pegar”.

Essa tática pode funcionar por um tempo. Mas, conforme o indivíduo vai se desenvolvendo, ninguém espera que esse tipo de “incentivo” baseado no medo continue sendo usado.

No entanto, esse fenômeno acontece o tempo todo nas igrejas: o domínio pelo medo. O raciocínio é o seguinte: “se o povo não quer tomar jeito por amor a Jesus, terá que ser por medo do diabo!”

Assim, grosso modo, o método é aplicado a tudo. “Você não quer deixar o refrigerante por princípios de saúde? Ok. Então vire o rótulo da Coca-Cola e leia ‘Alô Diabo’. Esse refrigerante é do demônio irmão!” Aí o crente deixa o refrigerante por medo do diabo, e não por um princípio baseado na Bíblia.

No assunto da música e adoração ocorre o mesmo. Quando o argumento não convence pela lógica, abusa-se de histórias de pactos diabólicos, mensagens subliminares, casos de possessão, etc. E depois é só fazer o apelo, desligar os instrumentos e jogar todos os cd’s na fogueira...

Mas o povo que prega a esperança não pode se sujeitar ao medo. E isso deve obrigatoriamente transparecer em nossa adoração. O clima repressivo, o tom ameaçador, o patrulhamento sem misericórdia deve ceder lugar ao incentivo, a orientação, o discipulado e até a repreensão com brandura.

A música dos "comedores de criancinhas”
A década de 70 foi marcante para a música adventista. O debate sobre a música foi afetado pelo contexto da Guerra Fria. A Revista Adventista foi inundada com artigos sobre música, com insistentes citações de Bob Larson e John Diamond, autores conhecidos por suas abordagens espiritualistas à música.[1]

Foi nessa década que surgiu a primeira versão da Filosofia Adventista de Música (1972), que foi substituído por outro documento em 2004. Quando comparamos as duas versões, fica nítido o caráter controlador da versão de 1972, que falava explicitamente de acordes, estilos e ritmos inadequados. Era praticamente uma lista de “pode x não pode”.

Demorou mais de 30 anos para a Filosofia Adventista de Música ter seu texto mudado. O atual texto é mais aberto, enfatizando princípios de adoração e não acordes e ritmos.[2]

Nesse contexto, em outubro de 79, a Revista Adventista publicou um curioso e amedrontador artigo “Uso comunista da música”, assinado por Melvin Munn. Veja como o pânico se disseminava:

“Os comunistas idealizaram esse plano especialmente para estudantes de escolas superiores, para produzir diferentes graus de neurose artificial e prepará-los para a agitação e precipitar a revolução — agitação e revolução para destruir nossa forma americana de governo e os princípios básicos cristãos que governam nosso modo de vida. (...)” p.7

“Atualmente esta música (rock’n roll) vai ainda mais profundo, dentro do coração da África, onde ela era usada para incitar guerreiros a um tal frenesi, que ao cair da noite os vizinhos eram comidos em panelas canibais. (...)” p.7

“Esta música (rock’n roll) é tão-somente parte do esquema diabólico dos comunistas para fazer os humanos retornarem à selvageria.”p. 7

Numa época em que era popular o argumento que "comunistas comiam criancinhas", nada mais natural que usar isso num artigo sobre música. Isso reflete bem o espírito do debate sobre música na igreja: especulações que apelam ao medo. [3].


Animais míticos
Essa abordagem assustadora também é usada na discussão sobre o uso da percussão na adoração. Esqueça a complicada discussão sobre acústica, volumes e ritmos: basta fazer uma assustadora conexão entre instrumentos de percussão e o sobrenatural que a discussão se resolve!

“O tambor é capaz de estabelecer contatos com os espíritos dos deuses, com as almas dos ancestrais, com os mortos e com os animais míticos.”[4]

Animais míticos? Desde quando os adventistas acreditam em animais míticos? Desde quando os adventistas tem medo de fantasma? Qual será o próximo passo? Adventistas pedindo pastores para “benzerem” suas casas para espantar o “mau-olhado”?

Poderíamos acrescentar itens ao “argumento mítico”: as religiões afro-brasileiras usam flores, água, sal, toalhas e roupas brancas em seus rituais. Isso quer dizer que não podemos usar tais coisas? Podemos decorar nossas igrejas com flores ou isso pode invocar os espíritos da umbanda? Podemos continuar usando toalhas brancas na santa ceia? E roupas brancas nos batismo? O crente pode comer pipoca mesmo sabendo que ela é usada em sessões de descarrego?

Perceba que o argumento mítico amedrontador pode ir longe...

Por que falar tanto do diabo?
Outra coisa que me impressiona no debate musical é o conhecimento que alguns tem da agenda satânica. É curioso como alguns escritores e palestrantes conseguem saber os planos secretos e gostos de Satanás. Como conseguem descobrir? São informações que, para mim, podem dar a impressão de uma certa intimidade com o inimigo.

Que o inimigo está ativo, ninguém duvida. O que eu duvido é que ele esteja envolvido em tudo o que afirmam sobre ele. Já o envolveram inclusive na produção do CD Jovem da igreja adventista: “Para esse fim, satanás já logrou êxito introduzindo a música gospel na igreja, até, nos CDs Jovem.” [5]

Eu tenho alguns CD’s Jovem, mas não consegui localizar em nenhum encarte o nome de Satanás como produtor executivo ou musical. Vi o nome de vários pastores e músicos adventistas. O autor do artigo está sugerindo que esses pastores e músicos foram usados por Satanás. E isso é muito sério.
Alguns pregadores e palestrantes se dedicam a estudar e ensinar o que Satanás está tramando. A desculpa deles é: “estamos numa guerra e precisamos conhecer as táticas do inimigo”. Daniel Spencer (foto ao lado) é um palestrante que adquiriu certa notoriedade no Brasil apresentando uma série de palestras denominada “A Guerra dos Sentidos”.

Quando tive contato com seu material, chamou-me a atenção o tempo dedicado por ele a falar de Satanás e seus planos secretos. Alguém lhe perguntou sobre isso após uma palestra (a partir de 14:30 min, no link: http://video.google.com/videoplay?docid=-6148262566346133974#

E a resposta (17:40 min) dele inclui:

“O objetivo da palestra não é mostrar um diabo vencedor, mas é mostrar um adversário que não pode ser ignorado. E Deus está sendo louvado quando eu faço isso, porque foi Deus quem criou o diabo. Ele criou um ser inteligente.

E o Espírito de Profecia nos diz assim: ‘muitas vezes, até mesmo do púlpito, falamos pouco sobre o diabo, e é necessário entender as táticas do adversário’. Não é necessário ficar estudando e enfiando a cabeça nos livros para entender como é o diabo e todos esses temas. O Espírito de Profecia e a Bíblia desaconselham isso. Mas temos que conhecer o que Deus nos mostra sobre como ele trabalha para não ignorar esse poder.”

Gostaria que alguém encontrasse e me enviasse o texto onde Ellen White afirma isso.
Eu sei que ela diz exatamente o contrário:

"É verdade que Satanás é um poderoso ser; mas, graças a Deus, temos um Todo-poderoso Salvador, que expulsou do Céu o maligno. Satanás se agrada quando magnificamos seu poder. Por que não falar de Jesus? Por que não engrandecer Seu poder e amor?"[6]

"Não é a obra do ministro evangélico dar voz às teorias de Satanás. ..."[7]

"No lugar em que o povo se reúne para adorar a Deus não seja pronunciada nenhuma palavra que desvie a mente do grande interesse central - Jesus Cristo, e Este crucificado. Com as questões colaterais, não nos devemos intrometer. O peso da obra é: Pregar a Palavra."[8]

"Deus pede um reavivamento e uma reforma. As palavras da Bíblia, e a Bíblia somente, deviam ser ouvidas do púlpito."[9]

"Dai ao povo a verdade presente. Falai a verdade. Enchei-lhes a mente com a verdade. Edificai as fortalezas da verdade. E não apresenteis as teorias de Satanás a espíritos que não devem ouvir falar a respeito delas.
O que o povo necessita não é uma apresentação das sedutoras artes de Satanás, mas uma apresentação da verdade como é em Jesus.
Lembrai-vos de que o diabo pode ser servido por uma repetição de suas mentiras. Quanto menos lidarmos com esses assuntos objetáveis, tanto mais puros, limpos e menos manchados estarão nosso espírito e nossos princípios. ... " [10]

"Ao falarmos na força de Satanás, o inimigo consolida mais seu poder sobre nós. Quando falamos no poder do Onipotente, o inimigo é repelido."[11]

Falamos pouco do diabo e seus planos no púlpito? Deveríamos falar mais dele? Deus é louvado quando falamos tanto tempo do diabo? Pregar o plano da Redenção não é suficiente, temos que pregar sobre o plano de Satanás?

Creio que há uma preocupante e crescente onda de interesse em experiências sobrenaturais no adventismo brasileiro.[12]

O problema é tão grave que a igreja mundial teve que tomar um voto incluindo no corpo de crenças fundamentais algo óbvio: Jesus é maior e mais poderoso que todos os demônios! Que tipo de adventista medroso não sabe que Jesus garante vitória sobre os demônios e libertação completa? [13]

No entanto, de nada adianta a igreja mundial enfatizar que “não mais vivemos na escuridão, com medo dos poderes do mal” se as igrejas emprestam os púlpitos para os pregadores do terror especulativo.

Escatologia Especulativa
E o pior é que esse misticismo invade a igreja à luz do dia, disfarçando-se de coisas boas, como “Seminário de Música”, “Seminário Profético” ou “Escatologia”. É impressionante ver como palestras que citam a maçonaria, os iluminati, o satanismo, numerologia, as mensagens subliminares e as supostas infiltrações jesuítas na IASD tem despertado o interesse. E os palestrantes ainda colocam Ellen White para “assinar em baixo” de suas teorias da conspiração.[14]

Desde quando essas coisas fazem parte da escatologia adventista? O que faz parte de nossa escatologia é saber que o espiritismo tem um importante papel a desempenhar. Mas isso não justifica essa onda especulativa que gera sermões e palestras e um desperdício do púlpito.
Infelizmente, alguns nomes de talento se enveredaram no caminho da especulação.

Para citar um exemplo, o dr. Walter Veith, admirado por sua contribuição à causa criacionista, desenvolveu uma série de palestras absurdamente especulativas e amedrontadoras sobre a Nova Ordem Mundial e as Sociedades Secretas e que também aborda o tema da música sacra. Isso acaba lançando sombra em sua credibilidade, o que é ruim para o criacionismo.[15]

Proponho urgentemente um retorno à Bíblia. Se vamos discutir música e adoração, façamos isso à luz da Palavra, e não à luz das teorias medonhas.

Chega de promover palestras sobre Sociedades Secretas, teorias da conspiração, Misticismo Oriental, Nova Era, pactos diabólicos, numerologia, simbologia do mal, satanismo e chamar isso de "escatologia".

Chega de ouvir sobre a Nova Ordem Mundial. Precisamos ouvir e atender à “Velha Ordem Divinal”: “Ide (...) e pregai o EVANGELHO” (Mc 16:15). Transformaram isso em “ide, pregais sobre os planos do diabo.”

A ironia é que essa onda terrorista tem invadido a igreja justamente através daqueles que clamam por uma “identidade adventista”, um retorno aos velhos e bons tempos. Esses temas conspiratórios são apenas um reflexo no adventismo de algo que está na moda no mundo evangélico. E eles tem oradores bem mais impactantes que nós (Daniel Mastral, Rebecca Brown, Josué Yrion, Tio Chico, dentre outros).

Reavivamento e reforma não acontecem com mensagens sobre satanismo e a feiúra do demônio. Segundo Ellen White, "Deus pede um reavivamento e uma reforma. As palavras da Bíblia, e a Bíblia somente, deviam ser ouvidas do púlpito."[16]
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[1] Bob Larson foi citado 33 vezes na Revista Adventista. Todas durante a década de 70 (com exceção de duas citações em artigo de 2005).
[2] O voto de 1972 é bem diferente do de 2004. O de 1972, por exemplo, traz a expressão “jazz, rock e correlatos”. O de 2004 não traz. A expressão estava no texto sugerido para o voto de 2004, mas saiu após análise após análise. Aqui está o de 1972: http://www.iamaonline.com/worshipmusic/Guidelines%20Toward%20An%20SDA%20Philosophy%20of%20Music.htm
Aqui está o texto sugestivo para 2004 (ainda com a referência ao "rock"): http://www.adventistreview.org/2003-1541/Music.pdf
Aqui está o atual, no formato final aprovado por voto: http://www.adventist.org/beliefs/guidelines/music_guidelines.html
[3] O adventismo sempre sofreu com esse tipo de “sensacionalismo terrorista”. Desde que abracei o adventismo, tenho ouvido falar de decretos dominicais que supostamente estavam assinados. O medo do decreto e da perseguição causado por histórias especulativas consegue mais reavivamento que a Palavra de Deus. Na verdade, há entre nós um grande número de “decretistas do sétimo dia”: gente que aguarda o decreto dominical com mais ansiedade que a própria volta de Jesus.
[4] Otimar Gonçalves, “As preocupantes implicações do uso dos tambores/bateria na adoração a Deus” http://www.ja.org.br/musica/artigos_tambores.html
[5] Artigo de Sikberto Marks, disponível em: http://www.musicaeadoracao.com.br/artigos/meio/musica_igreja_sikberto.htm
[6] Ciência do Bom Viver, 94.
[7] Mente, Caráter e Personalidade, Vol. 2, 718.
[8] Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, 331-332
[9] Profetas e Reis, 626.
[10] Evangelismo, 624.
[11] Mensagens aos Jovens, 105.
[12] Por isso, e também pelas orientações de Ellen White já citadas, não vejo como positivo o interesse em relatos sobre o submundo do espiritismo e do satanismo, como o de Roger Morneau, Rebecca Brown e Daniel Mastral. Isso normalmente só gera pânico, superstição, demonização exagerada e generalizada, e leva a falsos “reavivamentos” baseados em emoções. Se uma geração inteira de adventistas morre de medo de entidades e espíritos malignos, não será lendo Roger Morneau e assistindo palestras especulativas de Walter Veith que vão superar isso. É lendo e praticando a Palavra que liberta poderosamente!
[13] Crescimento em Cristo - Nova crença fundamental aprovada em 4 de julho de 2005, na 58ª Assembléia da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Pela sua morte na cruz Jesus triunfou sobre as forças do mal. Ele subjugou os espíritos de demônios durante o Seu ministério terrestre e quebrou o seu poder e tornou certo o seu destino final. A vitória de Jesus dá-nos vitória sobre as forças do mal que continuam procurando controlar-nos, enquanto nós caminhamos com Ele em paz, alegria, e a garantia do Seu amor. Agora o Espírito Santo mora conosco e nos dá poder. Continuamente comprometidos com Jesus como nosso Salvador e Senhor, somos livres do fardo dos nossos feitos passados. Não mais vivemos na escuridão, com medo dos poderes do mal, ignorância, e a falta de sentido de nosso antigo estilo de vida. Nessa nova liberdade em Jesus, somos chamados a crescer na semelhança de Seu caráter, comungando com Ele diariamente em oração, alimentando-nos de Sua Palavra, meditando nisso e em Sua providência, cantando Seus louvores, reunindo-nos juntos em adoração, e participando na missão da Igreja. Na medida em que nos entregamos ao serviço de amor àqueles ao nosso redor e ao testemunho da Sua salvação, Sua constante presença conosco através do Espírito transforma cada momento e toda tarefa numa experiência espiritual. Razões bíblicas: Salmos 1:1, 2; 23:4; 77:11, 12; Colossenses 1:13, 14; 2:6, 14, 15; Lucas 10:17-20; Efésios 5:19, 20; 6:12-18; I Tessalonicenses 5:23; II Pedro 2:9; 3:18; II Corintios 3:17, 18; Filipenses. 3:7-14; I Tessalonicenses 5:16-18; Mateus 20:25-28; João 20:21; Gálatas 5:22-25; Romanos 8:38, 39; I João 4:4; Hebreus 10:25.)
[14] Veja "Ellen White e o Alarmismo" em  http://www.adventismohoje.com/2010/08/combatendo-o-sensacionalismo-ii-ellen.html e "Combatendo o Sensacionalismo Profético" em
[15] Uma das teorias conspiratórias de Veith (referentes a adulterações do texto bíblico) mereceu uma refutação do Biblical Research Institute: http://biblicalresearch.gc.adventist.org/documents/Textus%20Receptus%20and%20Modern%20Bible%20Translations.pdf
As palestras especulativas de Veith também foram alvo de crítica publicada na Adventist Review: http://www.adventistreview.org/issue.php?issue=2009-1525&page=27
[16] Profetas e Reis, 626.
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Quem tem medo da síncope?


Se você é alguém ligado à música na igreja, certamente já ouviu (ou leu) por aí alguma coisa sobre os malefícios da síncope na música. Além disso, tornou-se popular no meio adventista a teoria de que Satanás inverteu a ênfase rítmica normal, que estava no 1º e 3º tempos (tempos fortes) e colocou no 2º e 4º tempos (tempos fracos).[1] Segundo tal teoria, essa ênfase "invertida" causa desequilíbrio corporal, enfraquece o lóbulo frontal e produz secreções sexuais.

Resumidamente, a síncope é o prolongamento sobre um tempo forte de uma nota emitida em tempo fraco ou na parte fraca de um tempo, como no exemplo destacado abaixo:


Segundo material disponível na internet, os efeitos da síncope na música são:
- estimula os músculos a produzir movimentos físicos
- produz no sistema nervoso central o mesmo efeito que as drogas psicoativas (cocaína, nicotina, anfetaminas, etc.)
- causam confusão mental
- podem produzir euforia, convulsões, transe, hipnose, dependência, tolerância e vício
- os músicos utilizam o ritmo sincopado para causar dependência e tolerância e assim vender bem.
- causa estresse, ansiedade, movimentação física (dança, marcha, exercícios, etc.), euforia, êxtase, transe, hipnose e vício.

Deixando de lado a discussão sobre a veracidade científica de tais afirmações, gostaria de, usando o critério desses pesquisadores, apresentar-vos alguns hinos perigosos:

Vamos começar pelos queridos hinos do Hinário Adventista. Analisemos "Achei um grande amigo" (HASD 88). Cerca de ¼ dos compassos desse hino trazem síncopes.


É compreensível que essa música seja tão sincopada: foi composta pelo fundador do estilo musical do “Exército da Salvação”, Charles W. Fry. Só para lembrar: o culto ruidoso da Carne Santa na campal de Indiana foi acompanhado de música ao estilo “Exército da Salvação”.[2]
Então, talvez os puristas tenham razão nessa história de convulsões, transe, etc. Se você acredita nessas teorias, seja prevenido: por via das dúvidas não cante esse hino...

Outro exemplo, um pouco mais leve e disfarçado, é o "Amigo mui precioso" (HASD 106):


Nesse aqui, a escrita em 2/2 camufla a síncope. Mas não se engane: ela está lá, espreitando você. Pronta para dar o bote em “Amigo mui precioSO...” e “assim andamos junTOS...”.

Outro exemplo de síncope, nas estrofes e no refrão de "Não há amigo igual a Cristo" (HASD 111):

E nem o casal Bill e Gloria Gaither escapou da síncope em "O Rei vem vindo" (HASD 128): Essa é clara: síncope explícita, sem disfarce na escrita. E quando chegamos ao refrão, observamos o mesmo padrão sincopado:
Agora um Negro Spiritual, "Anunciai pelas montanhas" (HASD 137):

Não foi sem críticas que os Negro Spirituals entraram no repertório adventista. Veja o que Dario Pires Araujo escreveu sobre tais hinos em 1969:

“Ao argumento de que eles (os Negro Spirituals) contêm sentimento, respondemos que nossa religião deve ser muito mais racional do que sentimental, mais espiritual do que emotiva. Por esta razão, em todo o nosso estudo jamais traduzimos o termo "negro spirituals", pois não o sabemos qual a melhor expressão que o traduza: se "espirituoso" ou se "espiriteiro", ou ainda "espiritado". Estamos convictos, porém, que não o poderíamos traduzir por "espiritual" que se refere a natureza de Deus, ou também a mais nobre face do ser, da pessoa humana. E qualquer obra que nasça de um sentimento de tristeza que não seja o de tristeza pelo pecado que causou o sofrimento de Cristo, esta fora do espírito do cristianismo."[3]

Mais um exemplo de síncope, desde a estrofe até o refrão de "Um novo nome lá na glória" (HASD 212):


E aqui está a síncope na mais pura essência: "Com Cristo no meu coração" (HASD 233). Esse hino sim deveria causar convulsões, hipnose e transe (se a teoria tivesse fundamento).


Dos 16 compassos, 5 trazem síncopes na linha melódica (2 síncopes em cada um desses compassos, o que resulta em 10 no hino todo). Se levarmos em conta o arranjo vocal, 7 compassos trazem síncopes (14 síncopes no hino inteiro). Isso representa quase metade do hino. E a situação pode ficar crítica, já que o hino repete tudo 4 vezes! Se o ritmo sincopado realmente pode produzir algum efeito maléfico, tem que funcionar nesse hino...

Poderíamos citar ainda “Brilha no meio do teu viver” (HASD 308), que também traz síncopes em 25% dos compassos. Até o belíssimo “Eu achei” (HASD 476) foi contaminado pela síncope. E o refrão de “Cristo conta comigo agora” (HASD 487) é uma coleção de síncopes.

E os exemplos podem se multiplicar. Alguns com muitas síncopes, outros com poucas, e outros com a suposta “inversão satânica” no ritmo forte. Tudo isso deveria causar no mínimo, confusão mental, segundo aqueles que por décadas assombraram as igrejas com essas teorias. Verifique estes:
- Amor nos faz contentes (HASD 238)
- Conta as bênçãos (HASD 244)
- Como agradecer (HASD 249)
- Confia em Deus (HASD 273)
- Oh quão doces as novas (HASD 335)
- Inda é longe Canaã (HASD 339)
- Ao passares pelas águas (HASD 367)
- Ao teu lado quero andar (HASD 407)
- Primeiro quero ver meu Salvador (HASD 439)
- O Senhor está aqui (HASD 470)
- Jesus, tu és a minha vida (HASD 478)

Se há problema na síncope, corremos sérios riscos de entrarmos todos em transe místico a cada sábado que cantamos esses hinos.

E se fôssemos analisar o repertório adventista contemporâneo, aí sim a situação estaria perdida: sobram síncopes a cada compasso. Procure em todos os CD’s adventistas que você possuir: a síncope muito provavelmente vai estar lá. Inclusive naquele CD que você acha tão consagrado, tão sacrossanto, tão “isso sim é que é música!”.

Nas músicas do Ministério Jovem, lá estão as síncopes. Veja quantas aparecem só nas primeiras frases de Vinde as Águas:


Incrivelmente, não há relatos de casos de êxtase, hipnose coletiva ou convulsões provocadas por essa música!

E, para encerrar, um teste. Abaixo temos mais uma música de um CD Jovem repleta de síncopes. Praticamente todos os compassos trazem síncopes. Se você tiver coragem, aperte o “play”. Mas cuidado: de acordo com especialistas, ao ouvir essa bela canção você poderá sentir os mesmo efeitos que os usuários de drogas...


Creio que os exemplos citados acima dariam ótimos "estudos de casos",se é que alguém ainda se dispõe a levar a sério as teorias da "síncope maligna" e da "inversão satânica". Reconheço que ritmos sincopados produzem efeitos (eles servem justamente para isso afinal!), mas certamente não merecem a demonização exagerada que sofreram por décadas.

Sim, esse artigo teve um tom irônico. Mas em momento algum ele faltou com a verdade.
Esclarecimentos? Creio que os autores de livros e artigos com tais teorias científicas sobre a síncope e sobre a “inversão satânica” é que devem se pronunciar.
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[1] Essa teoria, já defendida por autores como Samuele Bacchiocchi em O Cristão e a Música Rock, p 244, foi recentemente divulgada por Daniel Spencer em sua série de palestras “A Guerra dos Sentidos” no trecho que pode ser ouvido em: http://www.youtube.com/watch?v=D0zocGoI41Q
[2] Obviamente, você deve ter percebido a ironia no meu comentário. Não há aqui nenhuma intenção de criticar o Exército da Salvação. Ellen White aconselha a não imitarmos os métodos do Exército da Salvação, mas não nos autoriza a criticá-los:
“O Senhor tem balizado a nossa forma de trabalhar. Como um povo, não devemos imitar os métodos do Exército da Salvação. Esta não é a obra que o Senhor nos deu para fazer. Nem é o nosso trabalho condená-los e falar palavras duras contra eles. Há almas preciosas, que se desgastam no trabalho no Exército da Salvação. Devemos tratá-los com gentileza.
Há no Exército da Salvação almas honestas, que estão sinceramente servindo ao Senhor e que verão maior luz, avançando para a aceitação de toda a verdade. Os obreiros do Exército da Salvação estão tentando salvar os negligenciados, os oprimidos. Não os desencoragem. Deixem-nos fazer essa classe de trabalho por seus próprios métodos e em sua própria maneira.” Testimonies for the Church, vol. 8, p. 184.
[3] Apostila “A Música na Igreja Adventista” (material editado por Dario Pires Araújo em 1969), p. 29.

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Fanatismo em diferentes maneiras

Engana-se quem pensa que o fanatismo adventista ficou restrito ao perfeccionismo barulhento da campal de Indiana. Desde o início do movimento milerita, os adventistas tiveram que lidar com diferentes formas de excessos, excentricidades doutrinárias e métodos.
Sobre o fanatismo, Ellen White escreveu:

“Tenho estudado a maneira de fazer publicar novamente esses casos antigos, de maneira que mais pessoas dentre nosso povo sejam informadas, pois de há muito tenho conhecimento de que o fanatismo se manifestará outra vez, em diferentes maneiras.”[1]

Em diferentes maneiras. No caso dos Mackin, foi sem ruídos, gritos ou tambores. Mas você pode estar perguntando: “quem são os Mackin e por que eu nunca ouvi falar neles?” É exatamente esse o problema: não há motivos razoáveis para a popularidade da campal de Indiana e o desprezo à experiência dos Mackin nos fóruns de música adventista.

Em 1908 (após a campal de Indiana), o casal Mackin relatou a Ellen White suas experiências extáticas que foram posteriormente reprovadas pela Mensageira do Senhor. O próprio evento dos Mackin já parecia ser uma repetição de fanatismos anteriores. Segundo Ellen White, “parecia uma cópia daquilo que havíamos sido chamados a enfrentar e corrigir em nossa primitiva carreira”.[2]

Ellen White lembra: “Parecia-me estar numa reunião em que se faziam apresentações da obra estranha do irmão Mackin e sua mulher. Fui instruída de que era uma obra semelhante à que fora conduzida em Orrington, no Estado do Maine, e em vários outros lugares depois da passagem do tempo em 1844. Foi-me mandado falar decididamente contra essa obra fanática.” [3]

Por que os adventistas nunca se interessaram por esse evento tanto quanto pelo de Indiana?
Ele contém os mesmos elementos da experiência de Indiana: é carismático/pentecostal, envolve música também e foi combatido com advertências proféticas.
Que tal levarmos em conta isso?

A Música da Sra. Mackin
A conversa entre Ellen White e o casal Mackin aconteceu em 12 de novembro de 1908 (depois do incidente em Indiana) e tem uma boa parte registrada em Mensagens Escolhidas, nos volumes 2 e 3.[4]

As experiências da sra. Mackin envolviam “cantar no Espírito” (canto espontâneo), falar em línguas estranhas e o suposto dom de profecia. Não há relato do uso de instrumentos, a não ser o piano usado num teste vocal. A música é um elemento central nesse caso, e foi citada por Ralph Mackin como evidência da veracidade da experiência deles. Veja uma parte do relato da conversa:

Ralph Mackin: "Eu fui ao centro da cidade, a serviço; e o Espírito de Deus disse à Sra. Mackin que ela fosse ao local do acampamento, e cantasse ali; e lá Ele lhe diria o que devia cantar. E ela chorou como uma criança, e parecia mesmo que não conseguiria suportá-lo, porque o Senhor lhe mostrou a condição de nosso povo - logo cairiam as pragas, e eles não estavam preparados. Não havia nenhuma reunião em andamento, e o Espírito do Senhor desceu sobre ela quando chegou ao local do acampamento, e (voltando-se para a Sra. Mackin) você pode dizer-lhe quais as palavras que cantou.

Sra. Mackin: O Senhor colocou este encargo sobre mim. Eu não pude resistir-lhe. Eu queria tanto contá-lo, e cantar tanto aquele cântico! E não pude livrar-me disso até que eu o fiz. "Oh! ore", disse eu para a irmã Edwards; e assim eu me levantei no local do acampamento e cantei exatamente o que o Senhor me deu. O Senhor - isto é o que eu cantei:

"Ele vem vindo; Ele vem vindo; Preparai-vos; preparai-vos. "


E então (cantei) aquela declaração em Primeiros Escritos:
"Quantos vi chegarem ao cair das pragas sem um abrigo! Recebei o Espírito Santo."

São estas as palavras que eu cantei. Eu as cantei reiteradas vezes. Eles as ouviram em todas as partes do local do acampamento, e se reuniram; antes disso, porém, o Senhor mostrou-me como eles torceriam as mãos quando as pragas estivessem caindo. O Senhor pode mostrar alguma coisa num momento apenas, melhor do que se o contasse para nós. E assim Ele me mostrou como eles torceriam as mãos, e isso colocou sobre mim um fardo maior do que qualquer outro. Bom, foi então que eles nos prenderam.

Eu perguntei a um dos ministros, na tribuna das testemunhas - ele era um homem da Pensilvania - "Você consideraria aquele canto suficiente para causar distúrbio a uma campal?". Ele disse, "Eu nunca ouvi um canto como aquele em minha vida. Ele me emocionou profundamente" . Isto é o que todos diziam. É o mais lindo tom de voz, e parece nos erguer acima da terra.

É quando o canto é improvisado - ditado pelo Espírito - que ele é mais admirável. Se a senhora tem alguma luz para nós..."

Ellen G. White: Não sei se tenho alguma coisa especial que eu possa dizer. Haverá coisas que acontecerão bem no fim da história terrestre, segundo me foi apresentado, semelhantes a algumas coisas que vocês apresentaram; mas não posso dizer algo sobre esses pontos agora.

Ellen G. White: Que lugar foi esse em que ocorreu o canto de que vocês falaram?

R. Mackin: Mansfield, Ohio, na reunião campal.

Ellen G. White: Nosso povo - pessoas que observam o sábado?

R. Mackin: Sim, nosso próprio povo.

G. C. White: Aquele verso que a Sra. Mackin cantou ontem à noite era improvisado, ou um hino conhecido? [Na reunião de oração, na capela do sanatório, o irmão Mackin dera o seu testemunho nos momentos de louvor, sendo seguido pela Sra. Mackin, a qual cantou.]

Sra. Mackin: Oh! aquele era um de nossos hinos publicados. Encontra-se no novo hinário Christ in Song.

R. Mackin: Ao ouvir aquilo quase não se pode ter uma idéia de como é o seu canto quando as palavras lhe são dadas pelo Espírito Santo. É a coisa mais maravilhosa quando ela canta: "Glória!" Ela diz que, ao cantá-lo, parece estar na presença de Jesus, com os anjos. Repete diversas vezes a palavra "Glória!" Ela foi testada com o piano, e os músicos dizem que é uma anomalia - os graves e os agudos que ela alcança. Só pode fazê-lo quando ora no Espírito e é dotada de poder especial.

Sra. Mackin: Nós não temos este poder; só quando buscamos a Jesus.

"Indiana" X “Caso Mackin”: diferenças e semelhanças
Em ambos os casos nós encontramos elementos musicais e proféticos e ambos envolviam reuniões campais. No entanto, a música das duas experiências é muito diferente. E aqui está a confusão: alguns citam textos de Ellen White referentes ao caso Mackin como se fossem referentes à Indiana, perdendo o contexto histórico. A Carta 338, por exemplo, está ligada ao caso Mackin, e não ao caso da Carne Santa em Indiana.[5] Numa discussão sobre música, é uma questão de honestidade contextualizar as reprovações de Ellen White, dada tamanha diferença entre a música da Carne Santa e a música da sra Mackin.

A Música era Diferente

A música da Carne Santa era feita por uma banda ruidosa, com diversos instrumentos e manifestações físicas. Tal música foi descrita com expressões fortes como:
- “...ruído e confusão”[6]
- “alguns cantando, alguns gritando e alguns orando, todos ao mesmo tempo”[7]
-“... apenas se ouvem os gritos dos que estão quase enlouquecidos”[8]

Já a música da sra. Mackin era constituída de belos e suaves solos, provavelmente a cappella, cantados “no Espírito” (de improviso), e, como vimos, recebeu a seguinte descrição:
- “É o mais lindo tom de voz”.
- "É a coisa mais linda quando ela canta..."
- “parece nos erguer acima da terra”.[9]
O próprio Ralph Mackin destaca a diferença da experiência de sua esposa: um de seus argumentos é justamente que as suas reuniões eram diferentes do que ele tinha lido sobre fanatismo nos escritos anteriores de Ellen White.

Segundo ele, o fanatismo descrito por Ellen White “não corresponde com a nossa experiência. Temos sido muito cautelosos nesta questão e achamos que a experiência pela qual passamos e que procuramos delinear-lhe sucintamente esta manhã condiz exatamente com a experiência dos servos de Deus na antiguidade, segundo é apresentada na Palavra.”[10]

Diferentemente do culto da Carne Santa, a sra. Mackin não era acompanhada por uma banda barulhenta, não gritava histericamente, não usava hinários de outras denominações e cantava até trechos do Espírito de Profecia!

Se a experiência dos Mackin ocorreu através de métodos diferentes dos da Carne Santa, só a intenção ou a decisão prévia justificaria uma artilharia em cima de um único instrumento (no caso, o tambor da Carne Santa). Ou seja, o raciocínio dos que ignoram o fanatismo “em diferentes maneiras” é: “sabemos que o fanatismo acontece com auxílio de qualquer instrumento musical e mesmo sem nenhum deles, mas vamos falar mal só da percussão”.[11]

O pentecostalismo da Rua Azuza, por exemplo, foi acompanhado pelo piano tocado “no Espírito” pela esposa de William Seymour. Assim como a sra. Mackin, ela só conseguia exercitar seu “dom” quando estava “no Espírito”: ela não sabia tocar piano, mas o fazia de modo sobrenatural quando o “Espírito” vinha sobre ela. Na verdade, as primeiras manifestações pentecostais não dependeram de instrumentos musicais:

“Não havia hinários, nem liturgia e nem ordem de culto. Na maioria das vezes não havia instrumentos musicais. Mas ao redor da sala, os homens saltavam, gritavam, dançavam e cantavam.”[12]

Então, a experiência dos Mackin (sem tambores e balbúrdia), a experiência da Rua Azuza e tantos outros fatos deveriam ampliar o leque argumentativo e abrir a nossa visão sobre o fanatismo e o uso de instrumentos.

A reprovação profética foi semelhante
Quando comparamos com o caso de Indiana, vemos que Ellen White usa expressões semelhantes para descrever e para reprovar as reuniões carismáticas dirigidas pelo casal Mackin (relato de 1908). Ela escreve para o mesmo Haskell (para quem ela também escreveu no caso de Indiana)[13], e usa os mesmíssimos argumentos usados no caso de Indiana, com um agravante: nesse episódio ela menciona diretamente os cultos nas "igrejas", e não nas "reuniões campais".[14]

Na experiência extática da sra. Mackin, como no caso de Indiana, a música não é tangencial, um detalhe secundário. Longe disso: a música de origem sobrenatural é apresentada pelos Mackin como uma das evidências de que o Espírito Santo estava com eles. A música ocupa boa parte da descrição que os Mackin fazem de suas experiências, e também é citada explicitamente na repreensão de Ellen White.

Para o casal, Ellen White afirmou que no final aconteceriam coisas “semelhantes a algumas coisas que vocês apresentaram”. É exatamente a mesma advertência que ela faz sobre o fanatismo perfeccionista da Carne Santa. Ou seja, a semelhança entre os fanatismos do passado e o fanatismo do final dos tempos não se restringe a instrumentos específicos.

Assim como no caso da Carne Santa, Ellen White faz uma previsão de que coisas semelhantes aconteceriam no futuro. Ela faz afirmações como:
- “Haverá coisas que acontecerão bem no fim da história terrestre, segundo me foi apresentado, semelhantes a algumas coisas que vocês apresentaram; mas não posso dizer algo sobre esses pontos agora.” [15]
- "Nos últimos dias o inimigo da verdade presente introduzirá manifestações que não se acham em harmonia com a operação do Espírito, mas são calculadas a extraviar os que se acham prontos a acompanhar alguma coisa nova e estranha."[16]
- "Tais casos virão a nós de tempos em tempos. Não demos lugar a essas estranhas tensões mentais, que afastam na verdade a mente."[17]
- “Tenho estudado a maneira de fazer publicar novamente esses casos antigos, de maneira que mais pessoas dentre nosso povo sejam informadas, pois de há muito tenho conhecimento de que o fanatismo se manifestará outra vez, em diferentes maneiras.”[18]
- “Eu disse posteriormente que antes do fim veríamos manifestações estranhas da parte daqueles que professavam ser guiados pelo Espírito Santo.”[19]

E se o tema da música aparece na reprovação ao culto ruidoso da Carne Santa, aparece também na reprovação à experiência dos Mackin. Em sua resposta, Ellen White menciona experiências musicais de fanatismos anteriores e também inclui música em suas advertências:
- "Alguns (fanáticos depois de 1844) dançavam para cima e para baixo, cantando: "Glória, glória, glória, glória, glória, glória."[20]
- "Em nosso falar, nosso canto, e em todos os nossos cultos espirituais, devemos revelar a calma e a dignidade e o piedoso temor que atua em todo verdadeiro filho de Deus."[21]
- "No falar, cantar e em exibições estranhas, que não estão em harmonia com a obra genuína do Espírito Santo, sua mulher está ajudando a introduzir um aspecto de fanatismo que causaria grande dano à causa de Deus, caso lhe fosse permitido qualquer lugar em nossas igrejas."[22]

Aí está um caso de fanatismo musicalmente diferente ("cantar no Espírito"), mas igualmente reprovado por Ellen White.

Conclusões
Vimos que, assim como na campal de Indiana, o casal Mackin protagonizou experiências extáticas que também envolveram música. Existe a menção ao canto e testes musicais feitos ao piano. Não há nenhum relato de gritos, tambores ou danças. Houve “canto no Espírito” (improvisado) e supostos dons de línguas e profecia.

É importante salientar novamente o alerta de Ellen White de que o fanatismo se repetiria “em diferentes maneiras”. E a descrição do fanatismo dos Mackin nos liberta da predestinação exclusiva dos tambores de Indiana e ampliam nossa visão sobre o que é o fanatismo que vai se repetir.

Talvez o atual foco excessivo num tipo de fanatismo (ruidoso, pentecostal, com tambores) acabe deixando uma porta aberta para outros tipos (suave, com ar de solenidade e ortodoxia). Pode ser até mesmo que fanatismos já estejam se repetindo com ar de “conservadorismo vegetariano e pós-lapsariano”, mas como todos estão esperando um fanatismo barulhento e liberal, então ninguém se importa.[23]

Jamais devemos nos esquecer que Satanás opera seus enganos “por intermédio de instrumentalidades de diferentes maneiras”.[24]

Outra questão tem a ver com o material sobre música adventista disponível: eles simplesmente ignoram o caso Mackin. Esse evento dos Mackin e sua "musica no Espírito" obrigatoriamente deveriam aparecer em qualquer pesquisa séria sobre a música do carismatismo adventista em geral e suas implicações proféticas.

Qualquer professor de metodologia de pesquisa reprovaria os levantamentos bibliográficos que entronizam o caso de Indiana (por causa da menção do tambor) e ignoram outras experiências igualmente importantes. Mas certamente o caso Mackin seria bem conhecido se aparecesse ali uma menção a um pandeirinho qualquer...

Lendo algumas publicações sobre música adventista, temos a impressão de que só interessa o carismatismo adventista que envolva música ruidosa com tambores. De outro modo, nada explicaria a constante presença da Campal de Indiana e daquele parágrafo do "haverá gritos, com tambores, música e dança" nos artigos e compilações sobre música.

Então, essa extraordinária experiência dos Mackin não merecia entrar nas compilações sobre música? Os escritores e palestrantes não deveriam se interessar mais por ela?
______________________________________

[1] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 44. Ellen White relata que teve de “enfrentar o fanatismo em suas várias formas” (p. 28), e que “depois da passagem do tempo em 1844, levantou-se o fanatismo em várias formas” (p.34).
[2] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 42.
[3] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 46.
[4] O casal provocou distúrbios em uma campal e chegou a ser preso. Além dos “dons” musicais, o casal também exercia um ministério de exorcismo. Como os volumes 2 e 3 do Mensagens Escolhidas não trazem o relato completo, veja o tópico "The Ralph Mackin Story" em: http://www.whiteestate.org/issues/charism-alw.html
[5] A carta de Ellen White a Haskell, presidente da Associação da Califórnia na época, (Carta 338) é de 26 de Novembro de 1908. Duas semanas antes ela teve o encontro com o casal Mackin (12 de Novembro).
[6] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36.
[7] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 31.
[8] Arthur L. White, The Early Elmshaven Years, vol. 5, p. 102.
[9] Veja também a descrição do culto da Igreja Católica Apostólica Romana em O Grande Conflito, p. 566-567. É musicalmente excelente e solene, mas espiritualmente nefasto.
[10] Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 374. Após ouvir Ellen White falar das várias manifestações de fanatismo que ela teve que enfrentar, Ralph Mackin disse: “Recordo ter lido muita coisa a esse respeito no volume 1 de Testimonies for the Church ("Testemunhos Para a Igreja") - sua experiência em repreender o fanatismo, e da causa no Leste quando eles marcaram o tempo, creio que em 1855.” Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 372.
[11] O extremismo em “várias formas” pode ser observado no fato de muitas igrejas proibirem o uso de instrumentos musicais em seus cultos. Dentre elas, podemos citar algumas Presbiterianas, as “Igrejas de Cristo”, os “Irmãos de Plymouth”, algumas Batistas mais antigas, a Igreja Cristã Ortodoxa Oriental, os Amish e alguns Menonitas. Além desses, podemos citar algumas liturgias tradicionais católicas e luteranas feitas totalmente a cappella. Proibir o uso de instrumentos, que já é em si uma forma de extremismo, não conseguiu manter o fanatismo (ruidoso ou silencioso) longe de alguns desses grupos.
[12] Ted Olsen, “American Pentecost”, Christian History, 4/98. O piano que acompanhou os primeiros cultos pentecostais ainda pode ser visto na Bonnie Brae House [http://laist.com/2008/05/24/laistory_bonnie.php?gallery0Pic=3#gallery ].
[13] Infelizmente, alguns utilizam essa carta como se ela tivesse sido escrita no contexto da campal de Indiana, o que não é verdade.
[14] As reuniões campais não tem hoje a mesma relevância que tinham no adventismo da época, mas a cada semana temos pelo menos três cultos nas igrejas. Assim, a advertência dada no caso Mackin é mais próxima de nossa realidade que essa relacionada à Indiana: “É melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar instrumentos musicais para fazer a obra que, foi-me apresentado em janeiro último, seria introduzida em nossas reuniões campais”. Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 57.
[15] Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 367.
[16] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 41.
[17] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 42.
[18] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 44.
[19] Carta 338, 1908, para S. N. Haskell.
[20] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 42.
[21] Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 373.
[22] Carta 358, 1908. Publicada no Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 44-46.
[23] Sobre esses extremos, Ellen White escreveu: “Se Satanás vê que Deus está abençoando Seu povo e preparando-os para discernir-lhe os enganos, trabalha com sua magistral capacidade para introduzir fanatismo de um lado e frio formalismo de outro, para que ele possa ceifar uma colheita de almas.” Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 19.
[24] Primeiros Escritos, p. 43.

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Culto da "Carne Santa": uma cópia de métodos - 3

A Carne Santa não foi Woodstock
Que tipo de música se ouviu na Campal de Indiana? Alguns críticos da música adventista contemporânea descrevem a campal de Indiana como se fosse um Woodstock adventista, como se as pessoas estivessem em êxtase ao som de guitarras e sintetizadores tocando o repertório do último CD Jovem. Isso é "tendência" na leitura.
Você pode ouvir antigas gravações do Exército da Salvação (algumas da década de 20) numa coleção particular que abrange gravações de 1927 a 1932 clicando aqui e aqui ou acessando o site http://www.regalzonophone.com/.
Os excessos de Indiana não ocorreram ao som de jazz, rock ou blues. O fanatismo histérico da “Carne Santa” aconteceu ao som de hinos tocados em alto volume, e num estilo que hoje soaria engraçado ou no mínimo estranho aos nossos jovens: ao estilo do Exército da Salvação. Vamos conhecer esse estilo.

O Ecletismo do Exército da Salvação
A primeira banda do Exército da Salvação foi composta por Charles W. Fry e seus três filhos, em Salisbury em 1878. Eles formavam uma pequena “brass band” (banda de metais) com cornetas, um trombone e um eufônio.
As bandas do Exército da Salvação faziam estranhas combinações de instrumentos. Apesar de serem primariamente “brass bands”, não era costume do Exército da Salvação rejeitar músicos cristãos que quisessem participar. Assim, era comum ver, especialmente em comunidades menores, uma tuba acompanhando um violino, ou um trompete acompanhado por uma concertina (espécie de sanfona pequena).
Esse tipo de “banda” eclética foi exatamente o que Haskell observou na campal de Indiana: “Eles possuem um órgão, uma viola, três violinos, duas flautas, três tamborins, três trompetes, e um grande bumbo, e, ocasionalmente, outros instrumentos os quais não mencionei.”
E após mencionar os instrumentos, Haskell descreve o estilo de música da campal de Indiana: “Eles são bem ensaiados em suas trilhas musicais como qualquer Exército da Salvação que você já ouviu dizer.”[1] O Repertório da Carne Santa
É relatado que eles usavam um hinário chamado “Garden of Spices” [2]. Esse hinário foi feito por Thomas Nelson, Flora Nelson e Fannie Birdsall. Os Nelsons eram da igreja Metodista Livre, denominação envolvida no movimento “Holiness”. O “Garden of Spices” foi apresentado por eles na Assembléia Geral “Holiness” em 1901, como descreve o relatório oficial da Assembléia.

Desde o seu início, no século 19, a adoração no Metodismo Livre já mostrava sinais de que não daria lugar para o formalismo. De fato, os Metodistas Livres originalmente até chegaram a banir a música instrumental numa forma de protestar contra o padrão cada vez mais formalista da tradição Metodista.[3]

Assim, os adventistas de Indiana estavam usando um hinário metodista livre e tocando ao estilo do Exército da Salvação – ambos identificados com o movimento “Holiness”.

Ainda usamos hinos do Exército da Salvação
Para alguns críticos da música contemporânea, o problema da música da Carne Santa era o repertório do Exército da Salvação. Mas se isso fosse verdade, o problema continuaria, pois temos vários hinos do Exército da Salvação em nosso atual hinário.

Charles William Fry, autor de “Achei um grande amigo” (HASD 88) e “Vem, Jesus, nos despertar”(HASD 405), foi um dos fundadores do estilo musical do Exército da Salvação. Ballington Booth, autor de "Minha Cruz” (HASD 297), era filho de William Booth.

Temos também os hinos de Phoebe Palmer (a mentora do movimento Holiness) e de sua filha Phoebe Palmer Knapp: “Vigiai Cristãos” (HASD 126), “Bendita Segurança” (HASD 240) e “Agora posso ver” (HASD 516). Outros hinos do Exército da Salvação são “Louvores a meu Rei” (HASD 81) e “Doce Lar” (HASD 566). Além disso, Fanny Crosby, autora de vários hinos do Hinário Adventista, mantinha estreita ligação com o Exército da Salvação e o movimento Holiness.[4]

O problema foi identificado por Ellen White: não era tanto o repertório, mas a maneira como era dirigida. Segundo ela, “tal música, a qual, devidamente dirigida, seria um louvor e glória para Deus.”[5]

Mais uma vez vemos aqui o princípio de examinar tudo e reter o que é bom. Por isso, continuamos cantando hinos e canções do Exército da Salvação e do movimento Holiness até hoje.

O lugar de destaque do bumbo
É comum vermos escritores apontando o tambor como culpado pela bagunça da Carne Santa. Algumas pessoas até sugerem (equivocadamente) que o “big bass drum” utilizado pela Carne Santa fosse uma bateria. Mas isso apenas revela total desconhecimento do que de fato ocorreu em Indiana, ou revela preconceito por parte de quem distorce a informação.

Para os salvacionistas, o bumbo é mais do que apenas um instrumento musical. Ele tem sido usado para chamar a atenção das pessoas e anunciar o início de uma reunião, como um sino de uma igreja.[6]

É difícil imaginar o Exército da Salvação sem o 'big bass drum'. Ele é considerado, junto com a bandeira, o símbolo mais conhecido do “Salvacionismo” militante. Mesmo onde não houver uma banda, é quase certa a presença de uma bandeira e um bumbo.

Mas o tambor não foi rapidamente aceito como uma adição à “brass band” do Exército da Salvação. Quando Charles Fry e seus três filhos se tornaram a primeira banda, em Salisbury, suas cornetas, trombone e eufônio não foram considerados muito inadequados, pois esses instrumentos havia, por algum tempo, acompanhado igualmente o cântico nos cultos nas capelas. Mas não foi assim com o tambor, que foi condenado como maligno e “mundano”, e seu uso para fins religiosos foi considerado um sacrilégio.

Em abril de 1879, Austin Grant, um dos primeiros conversos da Missão Cristã em Salisbury[7], tornou-se o percussionista pioneiro do Exército da Salvação. Mas logo ele sentiu o peso do preconceito. Os cidadãos de Salisbury se opuseram ao uso do tambor nas ruas de Salisbury durante o Domingo. "Reuniões tranqüilas eram desconhecidas", escreveu Grant Austin anos depois, “e quando íamos para as ruas éramos frequentemente atacados com lama e pedras."

Hallelujah Bands – o início de um estilo de culto
O culto primitivo do Exército da Salvação ficou conhecido como “Hallelujah Band”, e os primeiros salvacionistas foram várias vezes lançados na prisão sob acusação de “distúrbio da paz”.[8]. Em Junho de 1877 William Booth disse:

“Eu não sei de onde vem o nome ‘Hallelujah Band’; tudo o que sei é que está lá, e veio a significar um certo tipo de culto diferente da ordem costumeira do Culto Divino. Todos nós sabemos que aquilo é como ‘primeiro um hino, então uma oração, então outro hino, então um capítulo, e um cântico de novo, então pregam, outro hino, a bênção, ir para casa para jantar, e então uma soneca’.”

Booth continua: “Agora, a Hallelujah Band destaca em contraste com tudo isso, é exatamente o oposto ao que eu chamo de estilo seco, desolado, sistema de um homem só. Ela começa com uma plataforma lotada com as pessoas mais consagradas e animadas, e você tem com uma espécie de presidente, que na maior parte permanece ali e seleciona os oradores mais eficazes em torno dele, que fazem sermões de cinco a quinze minutos, intercalando todos com fervorosas orações e música entusiasta, terminando tudo com um tipo de reunião de oração e penitência.”[9]

Esse era mais ou menos o mesmo método utilizado nas Campais do Movimento Holiness (exceto pela duração dos sermões: nas campais eles eram mais extensos). Mas essa alegria logo se desvirtuou em fanatismo e histeria, como veremos.
Excessos no Culto do Exército da Salvação
A adoração do Exército da Salvação não era nada formal ou tradicional e também lidou com excessos logo no início. Os cultos eram caracterizados por ‘soldados’ fazendo “exercícios de joelhos” (orando), ou sendo movidos a “disparar uma rajada” (gritar “Aleluia!”) e “erguer baionetas” (levantar a mão direita numa declaração pública).[10]

Ainda naquele tempo, e mais ainda após reflexão posterior, admitiu-se que esses cultos continham elementos de histeria e auto-engano. No entanto, alguns, como Bramwell Booth, permaneceram convencidos de que “alguma coisa da mesma força que se manifestou no Dia de Pentecostes, também se manifestou nas reuniões em Londres”.[11] Bramwell Booth até mesmo relatou casos de levitação durante as reuniões!

Ainda que esses cultos “holiness” pioneiros pareçam ter sido excepcionais em seu emocionalismo, os cultos do Exército da Salvação posteriores se tornaram mais moderados, ainda que caracterizados pela alegria e celebração espontânea.
Um dos biógrafos de William Booth escreveu:

“O clero estabelecido
(do metodismo) fez objeção à excitação gerada nas reuniões do Exército da Salvação. Eles não gostavam de ouvir o povo gritando “Glória” e “Aleluia”. Eles não gostavam de vê-los pulando para cima e para baixo ou caindo desmaiados. Eles consideraram algumas dessas manifestações físicas uma evidência de imoralidade. Eles só não conheciam a história da igreja. Eles se esqueceram que sua própria gente fizera a mesma coisa cem anos antes no Reavivamento Wesleyano.”[12]

Outro exemplo de excesso no metodismo foi o reavivamento no Wheaton College, em 1887, quando a instituição ainda era sustentada pelos Metodistas Wesleyanos. Ali também houve “excessivas manifestações” de emoção suficientes para surgirem artigos chamando os crentes à moderação e ao equilíbrio.[13]

Esses e outros exemplos demonstram a atmosfera de adoração emocionalmente carregada do Movimento “Holiness” do final do século 19. Agora, com esse contexto em mente, veja a descrição do culto da Carne Santa:

“[…] em seus cultos, os fanáticos chegavam ao êxtase pelo uso de instrumentos musicais como o órgão, a flauta, violinos, tamborins, trompetes e até um bumbo. Buscavam uma demonstração física e gritavam, oravam e cantavam até que alguém na congregação caía no chão, prostrado e inconsciente. Um ou dois homens designados, que andavam pelos corredores, levavam a pessoa até a frente. Então um grupo de umas doze pessoas se reunia em volta do inconsciente, alguns cantando, alguns gritando e alguns orando, todos ao mesmo tempo. Quando o inconsciente se levantava, consideravam-no como tendo passado pela experiência do Getsêmane, tinha obtido ‘carne santa’ e tinha a fé para a trasladação.”
[14]

A semelhança é clara. Depois de tudo, podemos inferir, com alto grau de certeza, que além de copiarem o repertório e o estilo de música do movimento metodista/holiness, os adventistas de Indiana também copiaram seus métodos de evangelismo, seu estilo de pregação e algo de sua teologia sobre santificação.

Conclusão
O tambor como bode expiatório - Vimos que na Campal de Indiana houve várias “cópias de métodos”: a banda, o hinário, a pregação, o apelo, a teologia e a própria campal. Não é sábio ver, depois de tudo isso, perigo apenas no tambor.
Atualmente, é irônico ver grupos perfeccionistas usando textos referentes ao fanatismo de Indiana para alertar a igreja sobre os supostos perigos dos tambores na música cristã, abafando o cerne da questão: o perfeccionismo.
É como se os perfeccionistas estivessem dizendo: “o problema não era o perfeccionismo, eram os tambores!” Apesar da teologia dos que se denominam “adventistas históricos” ser diferente da Carne Santa, o resultado final é o mesmo: perfeccionismo.[15]

Método e mensagem -
Ellen White combateu o método e a mensagem da Carne Santa. No entanto, a ênfase hoje recai apenas sobre o método, especialmente sobre a música, enquanto o perfeccionismo adquire status de ortodoxia.Deixando a questão mais clara: você não pode usar música com percussão, mas pode apresentar um sermão pós-lapsariano perfeccionista que pouca gente vai se incomodar com isso Alguns sequer vão perceber o perigo.
Alguns “adventistas históricos” até focalizam a mensagem, mas manipulam os textos sobre a Carne Santa, desviando a discussão do perfeccionismo para a “natureza de Cristo”. Numa tentativa de reescrever a história, eles querem convencer a igreja de que o que Ellen White combateu na mensagem foi a posição pré-lapsariana da Carne Santa, além do seu culto ruidoso. Isso é claramente um red-hering para tirar o foco do que realmente importa: o perfeccionismo.

De um extremo a outro -
Como escreve Arthur Patrick: “O atalho para a trasladação oferecido em Indiana foi tão bem combatido pela profetisa da Igreja na sessão da Conferência Geral de 1901 que o perfeccionismo Adventista em seu modo 'Carne Santa' teve que se tornar mais sutil. Mas a memória deste movimento vibrante em Indiana ainda está profundamente enraizado na psique Adventista, proporcionando uma má notícia para ambos: o Espírito Santo e a bateria.”
Os adventistas tem um receio de tudo o que possa parecer pentecostalismo. Portanto, fala-se timidamente no Espírito Santo e sua obra atual. A doutrina da Chuva Serôdia, como é geralmente entendida e abordada, ofereceu para a igreja uma alternativa segura ao pentecostalismo, colocando o recebimento do Espírito Santo num futuro bem distante.
E a música Adventista tem sido limitada por causa dos excessos de Indiana e da advertência de Ellen White, prevendo fanatismo semelhante perto do fim dos tempos. Por medo de repetirmos Indiana, nos conformamos com a formalidade e a frieza. Para alguns, os cultos não podem ser fervorosos e alegres, mas se forem sombrios como uma missa católica, tudo bem – o importante é nos distanciarmos no pentecostalismo, ainda que isso nos aproxime da Grande Meretriz do Apocalipse e seu tradicionalíssimo estilo de culto.

Leia também:
Culto da "Carne Santa": uma cópia de métodos-1 : a influência Holiness nas campais.
Culto da "Carne Santa": uma cópia de métodos-2 : a influência Holiness na teologia.
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[1] Carta 1, S. N. Haskell para Ellen White, 25 de Setembro de 1900.
[2] Flora Nelson, Fannie Birdsall, and T. H. Nelson, comps. and eds., Garden of Spices: A Choice Collection for Revival Meetings, Missionary Meetings, Rescue Work, Church and Sunday Schools (Indianapolis, IN: Grace Publishing Co.,n.d.).
[3] Leslie R. Marston, From Age to Age, A Living Witness: A Historical Interpretation of Free Methodism’s First Century (Winona Lake, IN: Light and Life Press, 1960), p. 329-339.
[4] Rodney L. Reed, “Worship, Relevance and the Preferencial Option for the Poor in the Holiness Movement, 1880-1910”. Wesleyan Theological Journal, pg 98.
[5] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 37 e 38.
[6] http://salvos.org.au/about-us/student-centre/documents/SymbolsCharacteristics.pdf
[7] Missão Cristã era o nome original da missão que se tornou o Exército da Salvação.
[8] Rodney L. Reed, “Worship, Relevance and the Preferencial Option for the Poor in the Holiness Movement, 1880-1910”. Wesleyan Theological Journal, pg 100.
[9] http://www1.salvationarmy.org.uk/uki/www_uki_ihc.nsf/vw-sublinks/74F3065589B270418025709E0038DDA4?openDocument
[10] Edward H. McKinley, Marching to Glory: The History of the Salvation Army in the United States of America, 1880-1980 (San Francisco: Harper & Row, Publishers, 1980), p. 45-46.
[11] Harold Begbie, Life of William Booth, Founder of the Salvation Army, vol. 1 (London: MacMillan and Co., Limited, 1920), p. 410-413).
[12] William H. Nelson, Blood & Fire: General William Booth (New York & London: The Century Co., 1929), p. 179-180.
[13] http://wesley.nnu.edu/fileadmin/imported_site/wesleyjournal/1997-wtj-32-2.pdf
[14] Mensagens Escolhidas, vol. 2 p. 31.
[15] Uma das diferenças básicas é cristológica, sobre a natureza humana de Cristo. O movimento da Carne Santa estava baseado num tipo de crença pré-lapsariana, enquanto os “adventistas históricos” defendem a posição pós-lapsariana. O fato é que a crença “pré” ou “pós” não os impede de chegar ao mesmo perfeccionismo.
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Culto da "Carne Santa": uma cópia de métodos - 2

A Conexão entre o Movimento Holiness e a Carne Santa
O Exército da Salvação nasceu numa época em que os reavivamentos de santidade eram extremamente forte. O Exército da Salvação tem uma estreita ligação com o movimento “Holiness”, e é nítida a semelhança entre os cultos primitivos do Exército da Salvação, do movimento “Holiness” em geral, e o que ocorreu em Indiana. Mas a semelhança não fica apenas no estilo de culto, ela abrange também a teologia.
William Booth, fundador do Exército da Salvação, era um ministro metodista ordenado.[1] Sua denominação refletia o conceito de santificação das igrejas metodista/Holiness. De um modo geral, as igrejas da linha Metodista/Holiness (como o Exército da Salvação) enfatizam a vida santa como sendo a evidência do enchimento do Espírito. Por outro lado, as igrejas Pentecostais vêem evidência do derramamento do Espírito no falar de línguas em êxtase (glossolalia). Mas todos concordam com a necessidade de uma “segunda bênção”: a inteira santificação, ou perfeição cristã.[2]
A Missão Cristã de William Booth, a missão original que deu origem ao Exército da Salvação,realizava cultos especiais chamados “Reuniões de Santidade” (Holiness Meetings), que incluía coisas como pessoas caindo no chão, permanecendo em estado de transe por horas, e finalmente se levantando tão tranformadas pela alegria que elas não podiam fazer mais nada além de gritar e cantar em êxtase.O chão por vezes ficava lotado de homens e mulheres caídos, e os obreiros da Missão pegavam esses corpos e os levava para outras salas, assim a reunião poderia continuar sem distração.[3]
Em essência, era exatamente isso o que acontecia no culto da Carne Santa: uma experiência profunda que levava à santificação quase imediata. Essa experiência quase sempre envolvia manifestações emocionais e físicas.

O perfeccionismo da Carne Santa
Quando comparamos o conceito perfeccionista da Carne Santa com a ênfase na santidade e perfeição do movimento Holiness, vemos muitas similaridades. Mas é claro que a Carne Santa é um desenvolvimento dessas idéias perfeccionistas às últimas conseqüências.
As principais idéias da Carne Santa eram:
(1) que Jesus havia nascido com a natureza não-caída - com a natureza humana semelhante à que Adão possuía no Jardim do Éden antes da queda.
(2) Jesus havia passado por uma experiência no Jardim do Getsêmani e, aqueles que O seguiram em tal experiência podem possuir a natureza não-caída, como Jesus tinha (e que Adão tinha antes da queda), e que essa experiência possibilitaria a trasladação do indivíduo;
(3) Após tal experiência, que envolvia manifestações extáticas, o indivíduo, como Cristo, não seria mais pecador;
(4) Após a experiência do Jardim, eles veriam Cristo voltar.[4]

Em suma, a Carne Santa era um movimento de santidade radical, perfeccionista.[5] Quem não passasse pela “experiência do Jardim” era considerado “filho adotivo” e teria que passar pela morte para, então, “ir para o Céu pelo caminho sepulcral.”[6]
E apoiando a sua teologia perfeccionista, o movimento da Carne Santa usava os mesmos métodos do movimento Holiness: emocionalismo e excitação. Para obter a tal “experiência do Jardim”, que supostamente concederia instantaneamente a natureza não-caída, as pessoas se ajuntavam em cultos com “longas orações, música instrumental alta e estranha, e sermões demorados, excitantes e histéricos. Eles eram orientados a buscar uma experiência por meio da demonstração exterior. Bumbos e pandeiros auxiliavam nesse objetivo.”[7]
após descobrir esse pano-de-fundo, é extremamente ingênuo pensar que a histeria perfeccionista da Carne Santa foi uma invenção adventista “provocada pelos tambores”. A história mostra claramente as raízes do que aconteceu em Indiana: o ambiente perfeccionista gerado na América pelo movimento metodista/holiness.

Perfeccionismo: um problema desde Wesley
O próprio Wesley, fundador do metodismo tradicional, teve que lidar com o perfeccionismo e seus excessos. Embora a religião “afetiva” de Wesley almejasse a perfeição, detratores viam seu foco no coração como uma receita para o caos. Nessa gravura satírica, feita por William Hogarth, chamada “Credulidade, Superstição e Fanatismo”, acima, um encontro metodista é retratado como um ninho para a sensualidade e irracionalidade.[8]
A linha teológica no metodismo do movimento “Holiness” defendia uma santificação inteira e instantânea, diferente da santificação dinâmica defendida por Wesley. Um dos grandes nomes desse perfeccionismo Holiness foi Phoebe Palmer, uma evangelista metodista e escritora que foi uma das fundadoras do movimento Holiness.
Como a campal da Carne Santa foi descrita como “uma cópia dos métodos do Exército da Salvação”, é importante dizer que William Booth, do Exército da Salvação, foi especialmente influenciado pelo ministério de Phoebe Palmer a partir dos anos 1840. Palmer ensinava um “caminho mais curto” para receber a inteira santificação e enfatizava a importância da “experiência” em detrimento da precisão teológica.[9]
Mas os ecos da influência Holiness no adventismo ultrapassam a campal de Indiana: Phoebe Palmer escreveu vários hinos, e alguns deles ainda estão no Hinário Adventista do Sétimo Dia: “Vigiai Cristãos” (HASD 126) e “Agora posso ver” (HASD 516). Sua filha, Phoebe Palmer Knapp, é co-autora do famoso “Bendita Segurança” (HASD 240).[10]

Fechando a conexão Holiness-Carne Santa
O movimento da Carne Santa é geralmente creditado a três nomes adventistas: Albion Fox Ballenger, S. S. Davis e R. S. Donnell. Conforme veremos a seguir, cada um deles apresenta uma ligação com os métodos ruidosos e a mensagem perfeccionista do movimento Holiness.

A Conexão “Ballenger” – Durante os anos 1890, Albion Fox Ballenger, um já renomado evangelista adventista, começou a enfatizar a importância do batismo com o Espírito Santo em sua mensagem “Recebei o Espírito Santo” que incluía uma forte ênfase na vitória sobre o pecado. Seu apelo invadiu campmeetings e reavivou igrejas.
Como destaca Arthur Patrick: “Sem dúvida isso refletia a preocupação do crescente movimento Holiness, bem como os interesses do pentecostalismo que estava nascendo nos Estados Unidos na época. Provavelmente, isso criou a estrutura efetiva dentro da qual uma específica implementação poderia ser tentada – o movimento da Carne Santa no Meio-Oeste Americano.”[11]
A mensagem perfeccionista de Ballenger era forte, ao estilo “tudo ou nada”. Veja como ele se pronunciou numa sessão da Conferência Geral de 1899:
“Irmão, eu tenho ido de Massachusetts à Califórnia, e desde o Canadá até o Texas, e tenho dito ao nosso povo: ou se purifica ou sai da igreja de Deus. Irmão, atrevo-me a fazer isso, eu ouso falar exatamente isso de modo claro para o meu povo, e graças ao Senhor, alguns estão a ficar limpos, e alguns estão saindo .... Devo ter uma igreja limpa para convidar as pessoas para ela, antes que eu esteja diante do povo para dar o alto clamor em toda sua glória .... Vamos começar a orar para que Deus limpe as aves impuras para fora da igreja, pois elas estragam o alto clamor .... O Senhor diz que não podemos ter o batismo do Espírito Santo até chegarmos a vitória sobre todo pecado que assedia.”[12]

A Conexão “Davis” – O pastor S. S. Davis foi um dos líderes do movimento da Carne Santa. Davis era filho de uma mãe metodista fervorosa e um pai batista veterano da Guerra Civil. Ele se converteu ao adventismo em 1886, aos 32 anos de idade. Em 1895 ele foi ordenado ministro adventista e começou um ministério comunitário chamado “Missão Mão Ajudadora” (Helping Hand Mission) em Evansville, Indiana. Essa missão consistia em distribuir comida e roupas, bem como dirigir cultos e dar estudos bíblicos, um método semelhante ao do Exército da Salvação: assistência social e pregação.[13]
Existem duas grandes influências que moldaram o pensamento e o ministério de S. S. Davis:
1) as pregações de Albion Fox Ballenger, um famosos evangelista adventista da época, que enfatizavam a necessidade de ser “inteiramente sem pecado” para receber a plenitude do Espírito Santo.
2) o contato que ele teve na época com a mensagem e os métodos fervorosos dos pentecostais.
Assim, impressionado por uma mensagem perfeccionista e influenciado pelo fervor dos pentecostais, Davis se tornou um evangelista e reavivalista na Associação de Indiana, sob a tutela do recém-eleito presidente R. S. Donnell.

A Conexão “Donnell” – A ligação do pastor R. S. Donnell com o movimento “Holiness” é mais clara: ele era o presidente da Associação Adventista de Indiana, e a sua enteada era esposa de um capitão do Exército da Salvação.[14]

Após essa contextualização, fica fácil entender por que Haskell identificou o que ocorreu na campal da Carne Santa com estas palavras: “seu esforço de reavivamento é simplesmente uma cópia fiel do método utilizado pelo Exército da Salvação.”[15]

No próximo artigo, conheceremos a música usada na Campal de Indiana.
Leia também a Culto da "Carne Santa": uma cópia de métodos - 1, que mostra a relação entre as campais adventistas e o movimento Holiness.
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[1] O Exército da Salvação foi fundado em 1865, em Londres. Booth era um evangelista que desejava oferecer ajuda prática aos pobres e necessitados, além de pregar-lhes o Evangelho. Originalmente, seu ministério se chamava Missão Cristã, mas teve seu nome mudado para Exército da Salvação em 1878.
[2] Para uma análise da relação entre o Exército da Salvação e o movimento “Holiness”: http://therubicon.org/wp-content/full_text/supperclub3_barr.pdf
[3] Harold Begbie, Life of William Booth, Founder of the Salvation Army, vol. 1 (London: MacMillan and Co., Limited, 1920), p. 410-413. Para uma análise do perfeccionismo do Exército da Salvação: http://www.lcoggt.org/history/samuel_brengle_and_the_developme.htm
[4] Para mais detalhes, ver Arthur L. White, Ellen G. White: The Early Elmshaven Years, vol. 5, p. 108.
[5] Curiosamente, era um movimento pré-lapsariano. Ironicamente, hoje, os adventistas perfeccionistas são, em sua esmagadora maioria, pós-lapsarianos. Aqui também há algo curioso: teologia diferente produzindo heresia igual.
[6] Arthur L. White, The Early Elmshaven Year, vol. 5, p.108.
[7] Ibid., p. 101.
[8] Sobre isso, ver: http://www.comunidademetodista.com.br/johnwesley/
[9] Phoebe Palmer. “The Shorter Way.” Voices From the Heart (Grand Rapids, MI.: Eerdmans Press, 1987), p. 156-158.
[10] Na verdade, existem vários hinos do movimento Holiness no Hinário Adventista, mas isso será analisado no próximo artigo. Eu imagino a decepção dos "adventistas históricos" e outros grupos puristas ao descobrirem que cantamos o repertório perfeccionista a mais de um século.
[11] Arthur Patrick, “Later Adventist Worship, Ellen White and the Holy Spirit: Further Historical Perspectives”. http://www.sdanet.org/atissue/discern/flesh.htm
[12] Ibid.
[13] Kameron DeVasher, “Confronting a Crisis: the Holy Flesh movement in Adventism – part 1”. Adventist Review, Setembro de 2010. http://www.adventistreview.org/article.php?id=3726 [14] Arthur Patrick, “Later Adventist Worship, Ellen White and the Holy Spirit: Further Historical Perspectives”.http://www.sdanet.org/atissue/discern/flesh.htm
[15] Carta 1, S. N. Haskell para Ellen White, 25 de Setembro de 1900.

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Culto da "Carne Santa": uma cópia de métodos - 1




Contextualizando a Campal de Muncie, Indiana

O movimento perfeccionista da Carne Santa atingiu o seu ápice na campal de Muncie, Indiana em 1900. Em reação à mensagem equivocada e ao culto ruidoso da Carne Santa, Ellen White escreveu os mais claros textos contra o perfeccionismo e contra o emocionalismo na adoração. Um desses textos é o famoso “haverá gritos, com tambores, música e dança” [1].
No entanto, há uma chave para entendermos o que ocorreu nessa campal. O pastor Stephen Haskell foi testemunha do que aconteceu em Indiana e descreveu o ocorrido como uma cópia dos métodos do Exército da Salvação. Haskell afirma que os músicos eram “tão treinados em sua linha musical como qualquer coro do Exército da Salvação que já ouvistes. De fato, seu esforço de reavivamento é simplesmente uma cópia fiel do método utilizado pelo Exército da Salvação.”[2]
Ao escrevermos sobre a música da Carne Santa, não devemos desconsiderar a informação de que o que era praticado ali era musicalmente semelhante ao Exército da Salvação [3]. Mas, como era o “método do Exército da Salvação” de fazer música? E por que os adeptos da Carne Santa escolheram esse método?
Para entender, vamos contextualizar a campal da Carne Santa historicamente.
Nessa série de artigos veremos que o que aconteceu em Indiana era apenas o reflexo do que acontecia em toda a América do Norte, movido por duas fortes influências: o Movimento Holiness e o pentecostalismo que estava nascendo nos Estados Unidos. No entanto, o pentecostalismo ainda era muito novo para ser responsabilizado pelo que aconteceu em Indiana. Temos subestimado a influência Holiness/metodista e superestimado a influência pentecostal no movimento da Carne Santa.
As discussões atuais em torno do culto e da música cristã fazem parte da tradição Wesleyana/Holiness. Bem antes do debate sobre os cultos voltados aos “perdidos” (“seeker services”), o movimento Holiness já realizava cultos assim. Bem antes das discussões sobre música cristã popular e contemporânea, o movimento Holiness produzia e cantava tais músicas. Bem antes da “Bênção de Toronto”, o movimento Holiness já estava “caindo no Espírito” e seus adeptos sendo apelidados de “gritadores” (Shouters) e “saltadores” (Jumpers).
Assim, em vez de tentar conectar o fanatismo de Indiana ao surgimento do moderno Pentecostalismo da Rua Azuza, é mais correto olharmos para trás: nossas raízes metodistas/holiness.

O que foi o Movimento Holiness
O Movimento Holiness foi o resultado da união do Metodismo americano com o reavivalismo do Segundo Grande Despertamento. Isso deu início a uma crescente onda de persuasão perfeccionista na religião Americana que começou nos anos 1830 e durou até bem depois da virada do século.[4]
O Movimento Holiness tinha suas raízes ideológicas e espirituais no reavivamento Wesleyano do século 18. Mas apesar do metodismo ser um dos carros-chefes, o Movimento não era apenas metodista e incluía várias denominações, dentre elas, o Exército da Salvação.
O início do Movimento Holiness pode ser demarcado com a realização da primeira campal “Holiness” e a organização da National Campmeeting Association for the Promotion of Christian Holiness (Associação Nacional de Campais para a Promoção da Santidade Cristã) em 1867.
Veremos claramente que a Campal de Indiana tem algo a ver com as campais do movimento Holiness. Além da mensagem e dos métodos empregados na campal de Indiana, o próprio fato de realizar campais já era uma influência do movimento Holiness.




Copiando a Tradição Holiness de Fazer Campais
A tradição das campais já começou com sinais de excessos e fanatismo. Em 1798, um ajuntamento em Cane Ridge, Kentucky, marcou o início não-oficial de um estilo de adoração que ficou conhecido como “CampMeeting” (“reuniões campais”). Foram vários dias de intensa celebração religiosa que uniu ministros Metodistas, Presbiteriano, Batistas e outros. Muitas das características da campal de Cane Ridge, como reuniões ao ar livre, intenso emocionalismo e manifestações físicas, se tornaram modelo para futuros reavivamentos.[5]
A adoração na tradição “Holiness” se desenvolveu a partir da tradição desses reavivamentos e “campmeetings” do século 19. Nessas campais já era possível encontrar exemplos de demonstração emocional extrema, incluindo pulos, gritos, corridas, sacudidas, latidos e desmaios.
As reuniões campais não foram uma invenção adventista. Os adventistas seguiram o costume evangélico (especialmente o modelo metodista/holiness) de realizar reuniões campais desde a época do movimento milerita. [6]
Como era comum nas campais evangélicas em geral acontecerem fenômenos extáticos, nas campais mileritas esse sempre foi um perigo que rondava. Existem vários relatos de excessos perfeccionistas em reuniões mileritas.
Em 1843, por exemplo, o pastor John Starkweather promoveu o fanatismo da extrema santificação em uma das reuniões campais mileritas. Ele e seus seguidores se diziam capazes de discernir a condição do coração dos adoradores, e no meio de muito murmúrio e gemido, convidavam homens e mulheres a renunciar aos seus “ídolos”, que poderiam incluir broches, faixas, cabelo trançado, ou ate mesmo dentaduras postiças! [7]
Segundo Richard W. Schwarz: "o emocionalismo associado às reuniões campais coloniais não estava inteiramente ausente de suas correspondentes adventistas; orações fervorosas eram frequentemente interrompidas pelos brados de "Glória!" e "Aleluia!". Ao elevarem-se as emoções, alguns caíam prostrados no chão. Os principais líderes mileritas procuravam impedir que essa excitação saísse do controle, para que não degenerasse em fanatismo e levasse todo o movimento ao descrédito."[8]
Em 1º de setembro de 1868, aconteceu a primeira reunião campal oficial dos adventistas do sétimo dia. Todavia, "foi com algumas preocupações e temor do emocionalismo e desordem que frequentemente haviam desfigurado o tom espiritual das reuniões campais dos tempos coloniais, que a Associação Geral de 1868 votou recomendar tais reuniões."[9]
Repare que o perigo do emocionalismo e fanatismo existia, mas a igreja não abriu mão do que seria uma benção apenas por causa do risco de se tornar uma maldição.
Esse princípio nos interessa aqui: apesar das campais de reavivamento serem famosas pelos excessos e fanatismos, a igreja adventista não usou isso como desculpa para não fazer campais.
Um trecho de um discurso de Ellen White de 1891 revela que ela sentia uma certa preocupação exagerada entre os adventistas de não serem confundidos com o Movimento Holiness ou com o Exército da Salvação:
“Quando falamos da graça de Deus, de Jesus e seu amor, falamos do Salvador
como alguém que é capaz de guardar-nos do pecado, e salvar perfeitamente todos
os que se achegam a ele, muitos vão dizer: ‘Ó, eu temo que você esteja seguindo
o povo Holiness. Temo que você esteja indo atrás do Exército da Salvação’. Irmãos, vocês não precisam ter medo dos
claros ensinos da Bíblia.”[10]

Infelizmente, as preocupações e temores relacionados ao fanatismo e a desordem de outras reuniões campais se confirmaram mais tarde no adventismo em alguns casos (como nos casos do fanatismo da “carne-santa” na campal de Indiana, e do casal Mackin, que também teve experiências extáticas durante uma campal em Mansfield, Ohio [11]). Mesmo assim, os adventistas aprenderam a separar sabiamente o "bebê" da "água suja" e não jogar tudo fora. As reuniões campais foram mantidas, e abençoaram muitas vidas.
Repetimos esse sábio comportamento quando separamos os malefícios da TV, do radio e da internet e usamos esses meios para anunciar poderosamente o evangelho. No entanto, na música, parece que o menor risco de fanatismo, por mais distante e remoto que esteja, já justifica jogar o "bebê" fora junto com a "água suja".
Diante de situações semelhantes, o conselho de Ellen White é extremamente sábio:
“O fanatismo virá como sempre vem quando Deus opera. A rede ajunta o bom e o mau, mas quem se atreverá em jogar tudo fora, somente porque alguns não são peixes bons?”[12] E ela completa: “Apegai-vos a tudo o que seja bom. Não tenhais espírito de Farisaísmo; não tenhais atitudes de superioridade ou auto-confiança.”[13]
Esse conselho faz eco à ordem bíblica: “Examinai tudo, retende o bem.” (1Ts 5:21).
Conclusões
Conclusão 1: O próprio ato de realizar uma campal já era uma “cópia de métodos”. Especificamente, um método que já surgiu com excessos e foi popularizado pelo Movimento Holiness, também com excessos. É um erro supor que a "cópia de métodos" presente na campal de Indiana estava restrita ao uso de instrumentos musicais.[14]
Conclusão 2: Apesar das Campais terem uma origem questionável, serem frequentemente acompanhadas de excessos emocionais, e serem regularmente realizadas pelo movimento Holiness e por outros grupos não alinhados à teologia adventista[15], os adventistas não deixaram de usar esse método. Ellen White claramente endossou a realização de campais[16], mesmo estando ciente do fanatismo que rondava as campais Holiness e do risco de excessos no adventismo.[17]

No próximo artigo, veremos o que a Carne Santa emprestou do movimento Holiness em termos doutrinários.
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[1] “As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança”. Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36.
[2] Carta 1, S. N. Haskell para Ellen White, 25 de Setembro de 1900
[3] Por que os especialistas em música sacra adventista não se interessam em pesquisar essa preciosa informação musical? Criam um totem em cima da palavra “drum” (tambor), mas pulam uma informação tão clara! Os escritores de artigos repressivos também deveriam se interessar por isso.
[4] Steven T. Hoskins, “The Wesleyan/Holiness Movement in search of liturgical identity, em Wesleyan Theological Journal, p. 1245-125.
[5] J. William Frost, "Part V: Christianity and Culture in America", Christianity: A Social and Cultural History, (Upper Saddle River: Prentice Hall, 1998), p. 430.
[6] "Em suas reuniões campais, os mileritas seguiam um modelo colonial previamente desenvolvido pelos metodistas". Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de Luz (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2009), p. 39.
[7] Ibid.
[8] Ibid.
[9] Idem, 153.
[10] Mensagem “Our Present Dangers”, apresentada em Março de 1891. The Ellen G. White 1888 Materials, p. 904.
[11] O curioso (mas ainda não explorado no adventismo) fenômeno extático do casal Mackin está relatado em Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 362-368.
[12] Carta 76, 1886.
[13] Carta 9, 1886.
[14] Antes de condenar toda e qualquer “cópia de métodos”, lembremo-nos de empréstimos históricos como: a Escola Sabatina, o hinário, as semanas de oração, a liturgia, as tendas de evangelismo, os pequenos grupos e, mais recentemente, as jornadas espirituais de 40 dias – nada disso é invenção adventista.
[15] No final do século 19, até mesmo o Espiritualismo realizava Campais nos Estados Unidos. Veja, por exemplo em http://www.rootsweb.ancestry.com/~mivhs/vicksburgvillageviewsp5.htm e http://www.cassadaga.org/ Imagine hoje o que diriam os “adventistas históricos” sobre o adventismo dividir um método com os espíritas!
[16] Ellen White escreveu que “Deus convida os homens a (...) multiplicar reuniões campais em diferentes localidades, advertir as cidades, e enviar advertência longe e perto, nos caminhos e valados do mundo.” Manuscrito 4, 1899. Ela tinha uma visão positiva a respeito das campais, talvez por causa de seu passado metodista. Foi numa campal metodista em Buxton, Maine que Ellen White entregou sua vida a Deus em 1840.
[17] Se fosse aos dias de hoje, alguns adventistas denunciariam a conexão entre as campais e os movimentos evangélicos espúrios como provas da apostasia da igreja e de seu processo de “pentecostalização”. E talvez algum palestrante escatológico até conseguisse ver as Campais como um enorme plano Iluminati (ou Maçom) para dominar o mundo...

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